Entrevista com o músico Téo Ruiz que escreveu o livro "Contra-Indústria".
Tollen: Por que esse título de livro "Contra-indústria", é alguma provocação?
Téo: Na verdade o título do livro vem no sentido de propor um novo paradigma para a música independente, pois este último termo não condiz mais com a realidade que vivem os artistas profissionalmente fora da grande indústria e dos grandes meios de comunicação. Eles são, na verdade, auto-produtores de seu trabalho, participando de todas as etapas da produção musical. São não-especialistas, o oposto da visão de trabalho que se estabeleceu após a Revolução Industrial.
É uma alusão ao termo Contra-Cultura, mas não significa ser contra a indústria em si, é apenas uma maneira completamente diferente de lidar com a cadeia produtiva da música.
Tollen: Como surgiu o que conhecemos como cena independente?
Téo: A cena independente no Brasil já é antiga, protagonizada por nomes como Itamar Assumpção e Grupo Rumo. Na verdade, eles fazem parte do primeiro grande movimento no Brasil de artistas independentes, a Lira Paulistana, no início dos anos 80.
Tollen: Nessa época, os artistas viviviam dos shows ou da venda dos discos produzidos de forma independente?
Téo: Muitos dos artistas que remavam contra a maré, digamos assim, tinham outros empregos paralelos, como professores universitários por exemplo. E ainda tem, na verdade. Essa é uma questão muito ampla, não existe um padrão. O que existe é um mercado que privilegia a grande indústria, sufocando a imensa produção musical que existe fora dela, o que é uma distorção. Mas esse grande esquema está em crise, e várias mudanças estão por vir.
Tollen: E por que esse esquema Industrial de produção está em crise?
Téo: A crise atual do grande setor fonográfico tem, no fundo, menos relação com a existência de um cenário independente forte e mais com a própria insustentabilidade da maneira de como se criaram as relações nesse meio. Toda a mega estrutura criada para "formar sucessos", montar grupos e determinar o que as rádios vão tocar através de jabás um dia ia se tornar muito caro, até mesmo para essas multinacionais.
As próprias lógicas de mercado que se criaram ao longo do século XX, desde a produção até a distribuição, toda essa corrente, um dia ia estourar mesmo, não tem jeito. Obviamente que a Internet e o desenvolvimento tecnológico fortaleceram e muito o cenário independente e os auto-produtores, que podem sim ter sido o estopim dessa mudança de paradigma. Mas o alto custo de todo (o grande esquema) acaba sendo um vilão muito maior.
Tollen: As novas tecnologias tem parte de culpa nisso?
Téo: Creio que, na verdade, estamos vivendo uma importante transição, onde as grandes novidades não estão mais presentes exclusivamente nas grandes gravadoras. A esmagadora maioria, inclusive, se produz totalmente fora desse circuito, e naturalmente começam a ocupar e exigir um espaço maior para seus trabalhos, e serão cada mais ouvidos e atendidos.
Hoje em dia, existe pessoas compondo pelo Skype ou pelo MSN, só pra se ter uma idéia da diferença de comunicação, agilidade e aproximação que temos hoje. A maioria realmente almejava chegar a uma grande gravadora, essa era a opção. Os primeiros a romperem isso tiveram muita coragem, mas desde já tentavam se estabelecer de uma maneira diferente do que era proposto pelas grandes gravadoras.
Tollen: Nos anos 50, quando as gravadoras detinham o poder de produção, distribuição e 95% do lucro do artista, a cena independente continuou coexistindo ou morreu?
Téo: Nos anos 50 a indústria fonográfica estava em grande expansão no Brasil. As multinacionais estavam investindo a todo vapor, e estavam convivendo com a massificação do rádio, que era uma novidade.
Era muito custoso produzir música, por isso as iniciativas independentes eram vistas mesmo como marginais pois poucos não pensavam ou não tentavam entrar em uma grande gravadora (diferentemente de hoje).
Mais próximo dos anos 70, na verdade, é que os primeiros trabalhos independentes vieram à tona, como Antonio Adolfo e seu disco chamado Feito em Casa, já dizendo a que veio.
Tollen: Os artistas da cena independente, para ganharem força nos anos 70, reviram o modo de produção e as estratégias de distribuição da música que eles faziam ou o momento 'dos grandes festivais de música' favorecia o ressurgimento do cenário independente?
Téo: O momento dos grandes festivais foi um grande evento para a mídia. Era uma grande oportunidade de testar alguns artistas e realmente transformá-los em catálogos, como aconteceu com Caetano, Gil e Chico Buarque que são alguns dos frutos desses festivais.
Mesmo com toda qualidade apresentada por eles, esses artistas não tinham uma venda absurda como outros grupos que estouravam e sumiam rápido. Mas eles começaram a vender bem e sempre, por isso foram considerados artistas de catálogo das grandes multinacionais. No meio dessa efervescência toda ( ditadura militar, etc) começaram a surgir alguns nomes independentes (como o Antonio Adolfo).
No começo dos anos 80 veio o pessoal da Lira Paulistana, que realmente não estava nem aí com a maneira de como a grande mídia funcionava, muito pelo contrário. Eles não se agregavam por estilo musical, mas sim por uma inquietação estética extrema, por um desejo de se fazer música apesar do mundo. E, na verdade, hoje existem muitas semelhanças, como por exemplo os auto-produtores que não possuem nada que os una, a não ser a maneira contra-industrial de produção.
Tollen: No livro de vocês há a associação do músico independente com aquele tipo que produz música experimental?
Téo: Não existe nenhuma associação com música experimental no nosso livro. Ele não trata de assuntos estéticos, de gêneros musicais, estilos e etc. O Contra-Indústria traz uma séria discussão sobre a música feita fora do grande cenário industrial. Traz aspectos sociológicos, históricos, novas tendências, alternativas de produção e distribuição, entre outros assuntos. Ou seja, é um material conciso mas agrega diversos aspectos relacionados a maneira contra-industrial de produção propostas pelos artistas auto-produtores profissionais, que hoje em dia representam a maioria do que é produzido de música no Brasil, sem a menor sombra de dúvida.
Tollen: Como algumas bandas pops fazem sucesso na Internet de forma independente, porém com música comercial?
Téo: Como estão atentos à dinâmica das transformações, utilizam a internet como uma aliada na divulgação e distribuição de seu trabalho, ao contrário do que faz as grandes gravadoras. Nada mais natural de que esses artistas saiam na frente neste aspecto, alcançando uma certa repercussão dentro do que fazem.
Tollen: Dá pra viver só de música na Internet?
Téo: O mercado artístico, de maneira geral, enfrenta muitas barreiras e distorções no Brasil. Várias providências e movimentos estão sendo articulados em todas as áreas para mudar essa situação.
Viver somente de música na Internet ainda é uma grande utopia, mas viver do trabalho artístico como um todo (shows, direitos autorais, diversos projetos) passe a ser um pouco mais viável, ainda que difícil. Como todo trabalho, exige investimentos na carreira.
Tollen: Publicar música de graça na internet é um caminho?
Téo: Acho essencial hoje em dia, cada vez menos compete com a venda de CDs ou arrecadação de direitos autorais, como dizem as grandes gravadoras. Acredito que pro artista independente, não tem como fugir de disponibilizar pelo menos algumas músicas na internet. É possível encontrar nossos dois discos inteiros na rede.
Tollen: No livro de vocês há um estudo das Leis de incentivo a cultura?
Téo: Na verdade, trazemos uma abordagem geral do principal mecanismo de incentivo à cultura no Brasil que existe desde o início dos anos 90: a renúncia fiscal. De quando escrevemos o livro pra cá, muita coisa já mudou e muitas outras ainda mudarão. No livro, apontamos as leis de incentivo à cultura baseadas nos tributos federais, estaduais e municipais como uma importante ferramenta que deve sim ser utilizada pelos artistas independentes.
Tollen: E a Indústria, tem salvação?
Téo: Dentro de uma nova lógica de mercado, elas tendem a se adaptar e encontrar outras maneiras de sobreviver como já estão fazendo. Por exemplo, adquirindo sites de downloads pela internet (Napster e afins), além de lançar coletâneas apostando nos fonogramas que já possuem.
Mas a realidade do mercado está cada vez mais favorecendo as iniciativas independentes, dos autoprodutores, pois esses sim realmente estão propondo novidades, que é o que move a mídia e o consumo de música. Acho que essa é a grande tendência.
Tollen: Quais as críticas de vocês à essas leis?
Téo: Diversas manifestações extremamente importantes foram viabilizadas por esse mecanismo. Porém, existem distorções e diversas coisas a serem aperfeiçoadas. Uma das questões que citamos é o fato do próprio estado se utilizar dessas leis para realizarem seus projetos, ao invés de contarem com recursos de seu próprio orçamento. Por exemplo, a restauração de um prédio histórico de uma cidade ser feito com dinheiro das leis de incentivo, quando isso deveria e poderia ser uma política direta. Além disso, o marketing das empresas acaba de fato decidindo o que realmente vai acontecer ou não na cultura, pois o governo concede somente o aval para o artista buscar o patrocínio em troca de isenção de impostos, e ainda oferece propaganda gratuita para as empresas.
No fundo, esse tipo de mecanismo não se constitui em uma política pública para a cultura por si só, é um dos mecanismos, e acho que esse é o pano de fundo das críticas que levantamos sobre as leis de incentivo.
Tollen: Vocês estão a par das mudanças que estão ocorrendo na Lei Rouranet? Ela está sendo alvo de muitas críticas, qual a opinião de vocês?
Téo: Acho que é um momento de mudanças importantes, e temos sim que estar atentos às mudanças propostas pelo Ministério da Cultura.
Eu escrevi um artigo sobre a proposta do governo que inclusive foi publicada no blog oficial do ministério, além de ter participado ativamente do debate aqui em Curitiba com membros do governo. Considero que, no geral, a proposta é muito boa. Diversos aspectos que criticávamos no livro, inclusive, devem ser resolvidos com essa nova proposta.
A grande questão e preocupação é saber se essas proposta terão realmente seu efeito prático desejado. Não temos que ter medo das mudanças, afinal de contas todos sempre criticavam muito o funcionamento da Lei Roaunet, e agora que as mudanças chegaram não podemos simplesmente ter medo delas.
O Ministério está fazendo uma aposta, que depende, entre outras coisas, da aprovação de um outro projeto de lei que aumenta o orçamento do Ministério da Cultura. Isso ninguém pode ser contra.
Tollen: A população pode fazer alguma coisa quanto a essa questão?
Téo: O que acho que temos que fazer é estar atentos e cobrar as devidas medidas do governo para que as leis realmente atendam as necessidades da classe artística e, o mais difícil, que sejam efetivamente aplicadas.
Existem questões pontuais que discordo da proposta, que estão nesse artigo no blog do Ministério, mas pelo que está no papel e pelo discurso do governo, que se apóia na diversidade cultural e democratização dos recursos, é muito difícil ser contrário. Resta saber se esse discurso é mesmo a intenção do governo ou se é mais uma jogada de campanha, esse é o ponto central de minhas observações. Agora, a maioria das críticas à proposta que estou vendo são feitas por um grupo que tem muito acesso à mídia que vai perder importância.
Tollen: E quais as opções que tem que queira adquirir um exemplar do livro ou saber um pouquinho mais do trabalho de vocês ?
Téo: Pode visitar o nosso site, lá tem várias informações sobre a gente assim como adquirir o livro e os CDs. Além do Myspace também. Segue os links: www.musicaderuiz.art.br / www.myspace.com/musicaderuiz